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O Inventário do Invisível: Onde o Ponto se Torna Peso.

Seiscentos cartões. Seiscentas pedras. O que vemos em "Nosso descanso é carregar pedras" não é apenas uma instalação, mas o rastro de uma erosão. O cartão de ponto, esse rígido guardião da produtividade, deixa de ser um suporte burocrático para se tornar o diário de um naufrágio cotidiano. É a "anatomia política" de Foucault desnudada: o corpo que bate o ponto é o mesmo corpo que, silenciado pela métrica, torna-se dócil sob o peso do relógio.

Há uma ironia melancólica na escolha da aquarela. A tinta, que deveria ser fluida e livre, é condenada a desenhar o mineral, o denso, o inamovível. É aqui que a alienação de Marx encontra a exaustão de Byung-Chul Han. A pedra no centro do cartão sugere que o trabalho não termina quando a máquina silencia; ele se infiltra nos poros, torna-se subjetividade. O descanso, título e promessa, revela-se um simulacro: não se descansa do peso, descansa-se para continuar suportando-o. Carregar a pedra é a condição de permanência.

Entre a repetição minimalista e o gesto artesanal, a obra habita um espaço de resistência poética. Ela nos força a encarar o arquivo da nossa própria exaustão. Cada cartão é um monumento ao tempo que nos foi subtraído, uma prova de que, na lógica do desempenho total, o fardo é a nossa única herança constante. No fim, a obra não explica o trabalho — ela expõe a ferida aberta por ele, lembrando-nos que, enquanto o ponto for batido, a pedra estará lá, flutuando em sua leveza impossível de aquarela, pesando sobre tudo o que chamamos de vida.

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