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Who eats the sweet must taste the bitter – Cabidela [2014]

 

Na obra "Who eats the sweet must taste the bitter – Cabidela [2014]", o espaço performático torna-se um território de fricção entre o afeto doméstico e a violência estrutural. A imagem central — uma mulher batendo o sangue de uma galinha até a exaustão — evoca, inicialmente, a herança culinária e o sustento. No entanto, o movimento repetitivo e mecânico logo revela o peso de uma tradição que consome quem a mantém.

O título, um provérbio que sugere a aceitação da dor como preço do prazer, é aqui subvertido. O "amargo" não é apenas o sabor da hiel, mas a rigidez de uma sociedade patriarcal que exige da mulher a manutenção constante de uma pureza fabricada. A exaustão física da performer espelha o esforço invisível de gerações de mulheres destinadas a "manter o sangue fluido", a evitar que a estrutura social coagule ou pare de funcionar sobre seus ombros.

O clímax da performance ocorre no gesto de estender o lençol que vestia a própria performer. Ao expor o tecido manchado, a obra abandona a cozinha para invadir o quarto, aludindo ao arcaico e violento ritual nupcial. Ali, a mancha de sangue deixa de ser ingrediente para tornar-se prova: o atestado público de uma virgindade que valida a "honra" da família e a posse do marido.

Neste gesto, o corpo da mulher e o corpo do animal se fundem sob a mesma lógica de abate e inspeção. Estender o lençol é denunciar a exposição compulsória da intimidade feminina, transformando o símbolo da castidade em uma bandeira de resistência e luto. A performance questiona: até quando o sangue da mulher será o tempero necessário para a manutenção das tradições que a oprimem?

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