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Los Algodones Rojos

Concebida em 2019 na cidade de Rosario, a obra Los Algodones Rojos emerge de uma investigação profunda sobre as camadas de silêncio que recobrem o Massacre de Napalpí (1924), na região de Resistencia. O que a pesquisa revela — o extermínio de trabalhadores em campos de cultivo — serve como alicerce fundamental para uma transubstanciação artística: a criação de um objeto de confronto tátil onde a ferramenta de trabalho e a matéria-prima da exploração fundem-se em uma única entidade crítica.

Ao centro do conceito está a subversão da pá, símbolo universal do labor manual. Na obra, Almeida substitui o cabo de madeira, que tradicionalmente confere firmeza e controle ao manejo da terra, por densas fibras de algodão tingidas de um vermelho visceral. Esta troca de materiais anula a utilidade prática do objeto para instaurar uma urgência ética: o cabo deixa de ser um suporte mecânico para tornar-se a representação do próprio corpo do trabalhador. Frágil e orgânico, esse novo "apoio" materializa a precariedade de uma vida que foi fiada, colhida e sacrificada para sustentar a engrenagem econômica.

O uso do algodão como corpo estrutural da ferramenta cria um curto-circuito simbólico sobre as relações de produção. A fibra, produto final do esforço laboral, aqui se torna o próprio suporte — instável e saturado — que sustenta o peso da lâmina metálica. O vermelho que impregna o algodão não é meramente cromático, mas uma saturação que evoca o rastro humano deixado no processo de extração. A obra propõe que o "progresso" colonial é uma estrutura fundamentalmente falha, onde o instrumento de produção está permanentemente impregnado pela matéria-prima da exaustão e da dor.

Inútil para o cultivo físico, a pá de Los Algodones Rojos torna-se uma ferramenta de exumação histórica e sociológica. Ela não cava o chão para o plantio, mas escava a memória para revelar as tensões invisíveis que sustentam a relação de trabalho sob a lógica da colonização. Através do olhar de Márcio Almeida, o objeto artístico grita através da matéria, transformando a observação em um ato de consciência e lembrando que as ferramentas que constroem mundos estão, muitas vezes, manchadas pelo sangue daqueles que as empunham.

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