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Jet Lag - Lisboa 2014

 

A performance "Jet Lag", concebida e realizada pela Equipe S/A (Daniel Santiago e Márcio Almeida), opera como uma intervenção poética e política que tensiona as cicatrizes coloniais presentes na paisagem de Lisboa. O título da obra já anuncia sua premissa: o "Jet Lag" não é aqui apenas a desorientação física de quem cruza oceanos, mas um fuso horário ético e histórico. Trata-se do descompasso entre a modernidade que a Europa exibe e o trauma colonial que ainda ecoa de forma persistente sob o solo da Praça do Comércio. É uma dissincronose entre o presente monumental e as vozes silenciadas que permanecem latentes sob a superfície da história oficial.

Ao posicionar Daniel Santiago sobre um pneu na areia das margens do Rio Tejo, a Equipe S/A substitui a fluidez da navegação pelo peso do encalhe. O pneu, resíduo industrial da modernidade, torna-se uma ilha precária onde o corpo é forçado a um equilíbrio estático e vigilante. Estar na areia, e não na água, retira qualquer romantismo da travessia; o que se vê é a imprecisão do repouso em um terreno árido de memórias. O equilíbrio precário sobre o pneu ganha uma camada de crueza com o uso da bengala em vez do remo. Esse deslocamento simbólico retira da ação qualquer rastro de heroísmo épico, substituindo a força da conquista pela fragilidade do suporte, onde o performer tateia o tempo e o espaço em busca de um ponto fixo que a história colonial sempre lhe negou.

Nesse estado de suspensão, a declamação de O Navio Negreiro, de Castro Alves, preenche o vácuo da ação física. A poesia abolicionista não é apenas citada, mas evocada como uma força que dá gravidade ao corpo em equilíbrio. A bengala, que tateia o ar ou o solo seco sem oferecer tração, confronta a arquitetura do antigo Terreiro do Paço, forçando um encontro entre o monumento oficial e o rastro da vulnerabilidade humana. "Jet Lag" é, portanto, o retrato de uma história que não se estabiliza. É o ato de resistência de quem, mesmo apoiado na precariedade de uma bengala e encalhado em um pneu, sustenta na tensão do músculo e no rigor da palavra a urgência de desajustar o tempo para que a verdade possa finalmente aportar.

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