Nheë Nheë Nheë
A palavra/fala, para muitos povos Guarani, é Nheë: o sopro vital, a alma que habita o som. O título "Nheë Nheë Nheë", frequentemente reduzido pelo colonizador ao "nhenhenhém" pejorativo — o falar vazio, o ruído sem sentido — é aqui reivindicado como o próprio tecido da resistência.
Na performance, uma ânfora de barro repousa fragmentada. Ela não é apenas um objeto; é um corpo-memória, um receptáculo de saberes e existências ancestrais que sofreu a violência da queda, do silenciamento e da fragmentação colonial. Essa ruptura se manifesta ainda hoje no interior do Brasil, onde instituições religiosas muitas vezes sobrepõem seus dogmas às tradições locais, forçando homens em pequenas comunidades a esconderem suas raízes culturais e espirituais sob o manto de uma fé imposta.
A performer utiliza a pasta de urucum — o sangue vegetal, a cor da terra viva — para percorrer as bordas do que foi quebrado. Passar o urucum nas arestas do barro é um gesto de "cura impossível" e, por isso, profundamente político. Tentar colar o incalculável com a matéria-prima da floresta é um ato de decolonização que reconhece a ruptura, mas se recusa a aceitar o descarte ou a submissão aos novos credos que tentam apagar o passado. A "cola" de urucum não esconde a rachadura; ela a sublinha, transformando a quebra em linha de vida.
Neste "nhenhenhém", o que se ouve é o atrito da mão no barro e o sussurro de uma cultura que, embora fragmentada por séculos de interferência religiosa e moralista, insiste em se reajuntar. É uma reflexão sobre o trauma histórico e cotidiano: a tentativa de refazer um mundo que nunca mais será o mesmo, mas que, tingido de vermelho, encontra uma nova forma de existir — não mais como uma ânfora estática, mas como um testemunho vibrante de que a memória, mesmo sob pressão, permanece viva e comunicante.