Sobre o mesmo chão de estrelas
A instalação "Sobre o mesmo chão de estrelas" apresenta uma cartografia da fricção, onde o mapa do mundo não é impresso, mas subtraído. Utilizando placas de madeira — suportes reais de alvos em estandes de tiro —, a obra transforma a matéria orgânica em uma constelação de lacunas. Ao escolher o alvo como matriz, a obra evoca o pecado original da cartografia colonial: o mapa não como representação neutra, mas como instrumento de mira, posse e eliminação.
A força da obra reside na crueza de sua superfície. Nas bordas de cada perfuração, a madeira não apenas cede, mas se manifesta em relevos de violência: são fibras rompidas que se misturam a resquícios de papelão e fragmentos de alvos estilhaçados. Esses detritos criam uma topografia de feridas abertas, onde o rastro do projétil ganha volume e profundidade. Essa estética do trauma denuncia que a história do "mundo conhecido" foi esculpida à bala sobre corpos e territórios; a modernidade surge não do traço do navegador, mas do estilhaço acumulado de um projeto de ocupação.
O título, enraizado na vivência de uma comunidade recifense, projeta um paradoxo poético sobre a matéria. A instalação opera em uma dobra espacial: a madeira é, simultaneamente, chão e céu. Como chão, ela é o território tátil, a base agredida por um projeto de ocupação que se impõe pelo rastro da pólvora. Como céu, ela se transfigura no instante em que o vazio da perfuração assume o brilho do sonho: aqui, os furos deixados pelas balas são ressignificados como estrelas. Nessa inversão de perspectiva, a obra sugere que a cartografia do trauma pode ser também uma cosmologia de resistência; um firmamento forjado na própria pele do território, onde a luz da esperança teima em emergir precisamente dos pontos de ruptura.
É um convite para observar o mundo como um corpo partilhado: um solo comum que sustenta o peso de nossas disputas, mas que, através de sua própria pele lacerada, permite o vislumbre de um horizonte comum. Reconhecer as feridas no mapa é o primeiro passo para uma descolonização do olhar. Sob o mesmo chão de estrelas, a humanidade desenha sua história entre o impacto e o brilho, tateando a esperança de que, um dia, a luz das estrelas não precise nascer do buraco de uma bala.