NHeë Nheë Nheë 2018
A instalação Nheë Nheë Nheë materializa o trauma da colonização por meio de uma metáfora visual cortante, expondo a ferida aberta da catequização e da subjugação dos povos originários. Composta por treze galhos de oliveira transformados em cabos de ferramentas agrícolas — como pás e ferros de cova —, a obra conecta a imposição da fé à transfiguração dos corpos indígenas em força de trabalho exploratória. O próprio título resgata, ironicamente, a onomatopeia colonialista usada historicamente para deslegitimar as línguas indígenas como meros ruídos sem sentido; contudo, na Língua Geral, o termo Nhe'ẽ carrega o significado profundo de "falar" ou "fala". A instalação opera, assim, como um eco de resistência: o que o colonizador tentou reduzir a resmungo era, na verdade, cosmologia, identidade e voz.
A escolha da oliveira como matéria-prima carrega uma densa carga histórica e religiosa, pois a árvore, símbolo universal da paz e da unção nas religiões monoteístas, evoca diretamente o papel crucial das ordens religiosas que lideraram as missões de catequese. Na instalação, esse elemento místico sofre uma mutação violenta, deixando de representar a comunhão para se tornar a própria empunhadura da opressão, revelando como a fé foi instrumentalizada para justificar o massacre cultural. Ao utilizar esses galhos de madeira sagrada como cabos para as pás e ferros de cova, a obra ilustra a ruptura drástica do modo de vida nativo e de sua relação ancestral com a terra. A pá evoca a domesticação forçada da natureza e o esgotamento do corpo submetido ao lucro alheio, enquanto o ferro de cova simboliza a dupla morte perpetrada pelo processo colonial — a física, dos que tombaram na exaustão, e a cultural, que enterrou rituais, divindades e saberes ancestrais. Cada uma das treze ferramentas funciona como um monumento ao silêncio imposto, lembrando que a perda da língua e a proibição das práticas sagradas foram as armas mais cruéis de dominação. Ao expor a rigidez da madeira moldada para o esforço, Nheë Nheë Nheë recusa o esquecimento e convoca o espectador a encarar a raiz da nossa formação histórica, construída sobre o silenciamento forçado de culturas inteiras pela violência combinada do ferro e da cruz.