C-14
A série "C-14" apresenta-se como uma metáfora visceral e silenciosa da corrosão humana no cerne da produção arcaica. Ao dispor o carvão — matéria-prima da combustão e do progresso industrial — dentro de marmitas de alumínio, a obra subverte o objeto que deveria simbolizar o sustento e a vida para preenchê-lo com o resíduo de um trabalho que consome o próprio trabalhador.
O título, que remete ao Carbono-14, evoca a ideia de tempo, datação e vestígio. Nas carvoarias, o tempo não é medido pelo relógio, mas pelo ritmo da exaustão e pela degradação da matéria orgânica em mineral. A marmita, símbolo universal da pausa e da dignidade do operário, aqui é servida com o "alimento" que ele produz: o carvão. Há uma ironia trágica nessa composição, sugerindo que, na lógica da exploração extrema, o trabalhador não consome para viver, mas é consumido pelo que fabrica.
O contraste entre o brilho frio do alumínio e a opacidade porosa do carvão acentua a desumanização presente nessas relações de trabalho. O carvão é o corpo do trabalhador transformado em mercadoria; a marmita é o invólucro de uma promessa de subsistência que nunca se cumpre plenamente.
"C-14" não apenas documenta uma realidade laboral, mas interroga a permanência dessas estruturas de exploração na contemporaneidade. É um banquete de ausências, onde o alimento é substituído pelo combustível, e o sujeito é reduzido ao seu valor energético, queimado lentamente sob o peso de um sistema que ainda guarda as cinzas do passado.
