Professor Titular do Departamentode Geografia da Universidade Federal do Amazonas
Entre espaços: para onde?
por Ricardo José Batista Nogueira
A instalação de Márcio Almeida denominada de “Para Onde”, está carregada de sentido. A expressão carregada termina sendo metaforizada justamente pelo fato de a instalação estar composta de uma empilhadeira e de uma colheitadeira. Ambas têm a sua serventia no ato de carregar, não cama, mas outras coisas. Mas é exatamente sobre o que elas carregam na instalação que queremos apontar algumas questões, embora não possamos falar da cama isoladamente. Uma empilhadeira é uma máquina cuja função primordial é transferir, mover, remover, deslocar de um lugar para outro objetos e, ao final, empilhá-los. É uma máquina essencialmente das cidades, das grandes cidades. São utilizadas em diversas atividades, nas indústrias, nos galpões, nos procedimentos de operações urbanas de remoção de objetos visando acelerar o trabalho do homem. É uma máquina do espaço urbano. A colheitadeira, por sua vez, é concebida para o espaço rural, visando, do mesmo modo que a empilhadeira, a aceleração do trabalho. Carregam e transferem de lugar produtos do trabalho no campo, cana, feno, madeira e outros produtos. Colher significa retirar, extrair, remover. Neste sentido, verifica-se uma semelhança funcional para as máquinas, apesar de ser difícil encontrá-las juntas, pois pertencem a espaços distintos. Espaços urbanos e espaços rurais dividem o mundo humano há pouco mais de três séculos. A hegemonia do espaço urbano sobre o espaço rural é um dado recente. Esta nova geografia da sociedade, que se aglomera nos labirintos urbanos e se dispersa no campo, soterrou nossas noções de tempo, alterando os ritmos naturais da vida! Não há trabalho sem repouso, pausa, descanso. Eis a cama, objeto que acompanha a humanidade e simboliza o momento primordial da recuperação do corpo para novo dia de trabalho. Ao contrário das máquinas que estão expostas nas ruas, nas praças, nos canteiros de obras ou nas lavouras, provocando os ruídos próprios ao seu funcionamento, a cama é um objeto oculto no espaço doméstico, que reme-te ao abrigo, ao repouso e ao silêncio. A cama é um objeto da casa, nosso primeiro universo, constituída de devaneios, sonhos, sentimentos e memória, como afirma o filósofo francês Gaston Bachelard. Nosso habitar! Mas o que faz o artista juntar empilhadeira e cama e colheitadeira e cama? A intervenção criativa do artista é a junção das coisas e deixar o livre pensar do espectador sobre a obra, provocar a imaginação. Imaginação em mão dupla: quem cria e quem observa !!!! O impacto, o choque de ver uma cama suspensa por uma empilhadeira ou uma colheitadeira é visual, mas não é arte visual tradicional. Cenário próprio da arte contemporânea, não há nos objetos a intervenção direta do artista, como há num quadro ou numa escultura dando forma à matéria. Ao contrário do pincel, da tinta ou do formão e martelo como instrumento à disposição do artista para impor à matéria o seu pensamento, aqui é só o pensamento do artista sobre as coisas, juntando o que parece improvável, para expressar movimentos, deslocamentos. (Daí o Para onde?) Empilhadeira e colheitadeira não se cruzam, porque ambos os objetos são concebidos para espaços distintos. Não há serventia de uma empilhadeira no campo, assim como não há espaço ou serventia da colheitadeira na cidade. Acama, porém, é presença em ambos os espaços, urbano e rural, e ao contrário das máquinas que propõem movimento, a cama propõe o repouso. Empilhadeira, cama e colheitadeira, como utensílios que são, permitem mediações entre o pensamento, o sentido que o artista quer dar como obra de arte e o olhar interrogatório do espectador. Não são os objetos em si – empilhadeira, colheitadeira e cama – juntos ou separados que possuem sentido. O sentido não revelado está fora dos objetos, todavia está presente na paisagem urbana ou rural! Mas a cena sugere remoção da cama como aparência, em essência é remoção dos corpos, das pessoas na cidade pelos diversos processos de renovação, requalificação, valorização, especulação e gentrificação realizados pelos poderes públicos em acordo com promotores imobiliários para dar uma nova cara, produzir um novo cenário urbano com a exclusão daqueles que aí habitam. Não é só em São Francisco (Califórnia) ou Lisboa, mas no Rio de Janeiro e no Recife. Para onde vão? Pulverizam-se em outros lugares para serem, posteriormente, pulverizados novamente. É aqui que Pedro pedreiro encontra José e pergunta: e agora José? Para onde? No campo, a remoção da cama por uma colheitadeira pode sugerir um reordenamento espacial das terras, dos homens sobre a terra, do trabalho sobrea terra. Colher é, como dissemos, retirar, remover. Cana, café, laranja, boi, algodão, soja, com suas grafias sobre a terra, uma geografia, desenhando quadrados, retângulos e círculos perfeitos com a tecnificação do pivô central para irrigar, assim como máquinas sofisticadas para plantar e colher, exigem menos homens, menos trabalho humano, os empurram para outros espaços. Para onde vão? A remoção não precisa ser conflituosa!