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Objetos encadernados e outros objetos

por Aluizio Câmara

2002

 

Após sua última exposição individual, em 1999, Márcio Almeida continuou sua pesquisa dando prosseguimento às mesmas inquietações que regem as pinturas expostas naquela ocasião. Seus quadros eram compostos por sucessivas “aguadas”, de cores que variam do branco aos tons de cinza-azu-lado e preto, sobrepondo-se umas às outras. Havia também manchas mais densas, que chegavam a escorrer pela tela se responsabilizando pelo equilíbrio do conjunto. Por fim, riscos a grafite que giravam em torno de si, numa tentativa de justificar-se à exaustão. Na citada exposição, no entanto, não foram mostrados os objetos criados em paralelo àquelas pinturas. Confeccionados como obras pictóricas em três dimensões, estes trabalhos sequiam a mesma cartilha das telas, porém utilizando materiais diferenciados. Em um filme de PVC, por exemplo, Márcio desenha, escreve e acrescenta outras lâminas do material, fazendo a mesma tarefa seguidamente até os filmes formarem uma placa, como veremos nos trabalhos Conserva/Proteja. Este título, retirado da própria embalagem do produto, revela também a essência da mostra, que mais adiante compreenderemos melhor. É também desta época, Coração, obra relacionada à memória afetiva do falecido avô do artista. São textos, recortes de papel, receitas e cartas que se encontravam cuidadosamente guardados entre duas capas duras enlaçadas por cordões, dividindo sua superfície em quatro partes, como o órgão que empresta o nome à obra. Este objeto foi encontrado na casa deste avô após sua morte. Logo, em um gesto de respeito, Márcio envolveu-o também em filme de PVC, guardando-o carinhosamente como legado de seus cuidados e apegos do mundo material. Assim começa a história desta exposição, contada pelo artista, “este cavaleiro andante que descobre novos mundos da sensibilidade”2, falando-nos de uma ideia de acumulação, de transformação, de aprisionamento de matérias e de não-matérias, onde muitas vezes não há coisa palpável, onde tudo é subjetivo. Entram então em cena os espirais, algo encontrado nas coisas do mundo, gerados pela forte necessidade de “tridimensionalizar” os grafites que 214215habitavam anteriormente suas telas. Este elemento vem dar sentido ao título da mostra, uma vez que permite relacionar ou acumular objetos e seus conteúdos através da prática da encadernação. A partir disto começaram a surgir, de fato, os objetos encadernados. O primeiro deles é composto por duas mesas unidas por um espiral. Em uma delas o artista escreve o título Every body under the shadow of the King (todos sob a sombra do rei), revelando uma nítida reverência ao mestre enxadrista, pai da arte conceitual, Marcel Duchamp. Assim também, continua sua conversa com a arte conceitual no trabalho Bas, Bes, Bis, Beuys, Bus, quando luvas são também encadernadas, aprisionando, assim, tudo aquilo que se entende por manufatura. Ao coloca-las sobre o catálogo de Joseph Beuys, outra referência para arte atual, Márcio torna-se irônico, questiona a modalidade da arte que reivindica o termo conceitual como privilégio. Repete a intenção de acumular conteúdo humano quando encaderna camisas. Em Dissection, no entanto, ao invés de referir-se aos mestres, prefere descrever o aprisionamento do homem e tenta especular sobre seu conteúdo, traz à tona algumas observações escritas em uma das camisas que formam o par encadernado. Na obra Cohiba-Cobiça fica clara a intenção do artista em encaixotar ou acumular subjetividades, relações construídas entre indivíduos e também neste caso, entre nações. Uma caixa de charutos cubanos Cohiba, tendo uma mulher negra de perfil como logomarca, representa a América Latina e tudo o que seu povo produz, quase sempre explorado pelo preconceito e pela cobiça do chamado 1º mundo, representado neste trabalho pelos E.U.A. Desta maneira, entre outras questões, o artista denuncia a relação desequilibrada existente no comércio internacional. Volta também a falar de artesanalidade através da manufatura do símbolo escolhido, o charuto Cohiba, um dos mais cobiçados, fabricado pelas mesmas mãos negras que desenvolveram o “novo” mundo, às custas do desumano trabalho escravo, vergonha maior da nossa civilização. No entanto, somente quando o artista isola o espiral, ponto de partida desta mostra, é que passamos a entender melhor seu significado. Quando o espiral apresenta-se como peça, feita de ouro, metal nobre e perfeito, sem estará glutinando coisas, representa o próprio artista. Passa a ser o sujeito que transforma coisas do mundo em coisas não existentes, provocando-nos, ainda, quando o intitula de Ego Ideale. Enfim, navegando pelos mares subjetivos da arte, tentando traduzir suas inquietações diante da vida, Márcio Almeida revela sua alma, sua essência. Conta-nos em um breve sussurro, lançado ao sabor dos ventos no Cais da Aurora, esta história de sentimentos acumulados, de coisas aprisionadas. Uma poeira de coisa guardada que, não compreendida, fatalmente terminará esquecida em um canto escuro de nossas memórias.

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